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Descoisando o coiso, por Sadi Aneguel: Papagaios de pirata

Chegamos na era mais curiosa da história recente da humanidade: a geração do “fala”. Nunca se falou tanto, nunca se mostrou tanta opinião, e nunca se teve tão pouca base pra sustentar tudo isso. É tipo aquelas piadas ruins que tu finge que entendeu só pra não magoar o amigo.
Basta abrir o celular e tem alguém te explicando como viver, como pensar, como dormir melhor, como acordar rico, como cozinhar quinoa com propósito espiritual. Gente com 19 anos ensinando “como lidar com perdas”, sendo que a maior perda que tiveram foi um carregador que queimou.
Outro dia, me aparece uma moça de uns 20 anos dando aula sobre casamento. Isso mesmo: casamento. Explicando “como manter a chama acesa”, “como lidar com crises”, “como ter maturidade emocional”.
Mal saiu da adolescência, nunca dividiu guarda de controle remoto, mas fala do assunto como se tivesse aconselhado Adão e Eva antes de comerem o fruto proibido.
E claro, não podia faltar meus favoritos: os influencers teólogos. Ah, esses são um caso de amor — amor pelo caos. Cada vídeo é uma pérola tão brilhante que até o apóstolo Paulo, se estivesse aqui, diria:
— “É sério isso?”
A criatura nunca leu nem revistinha da Mônica, mas fala de hermenêutica como se tivesse revisado a carta aos Hebreus enquanto esperava o café ficar pronto. É uma ousadia teológica que nem Lutero ousaria colocar no rascunho.
E pra escrever sobre tudo isso, eu fiz um laboratório nas redes. Foi aí que encontrei a cereja do bolo, o campeão mundial da abobrinha espiritual: o Prophet Influencer.
Esse é um espetáculo à parte. O sujeito liga o ring light, ajeita o cabelo e dispara frases prontas como:
— “Deus manda te dizer…”
— “Deus te deu um livramento…”
— “Deus ouviu tua oração…”
Jesus amado… que show de engano!
E o mais grave: quem vive disso tá quebrando o terceiro mandamento, aquele que proíbe usar o nome divino de forma leviana, frívola, profana ou manipuladora.
“Não usar o nome de Deus em vão” (Êxodo 20:7). E usar o nome dEle em vão é isso aí: dizer que Deus disse aquilo que Ele não disse. É colocar palavras na boca do Altíssimo como se fosse legenda automática.
Mas não para por aí. No meio desse laboratório digital, encontrei outro exemplar da fauna moderna: o coach literário de duas horas.
Eu confesso que até gargalhei. O cidadão dizia:
— “Escreva seu livro em DUAS HORAS!”
Kkkkkkkk… duas horas??? Um livro???
Depois eu até pensei: ok, encher 200 páginas de letras, jogar umas frases soltas, criar uma capa chamativa e publicar um PDF é fácil mesmo — ainda mais pra uma geração que não valoriza experiência, processo, raiz, profundidade. O resultado? Um “livro” com letras sem emoção, sem vida, sem alma. Um bolo sem fermento. Um corpo sem sopro. Mas tá lá, publicado — e com tutorial.
O mais impressionante não é nem o malabarismo desses influencers. É a plateia. Centenas de pessoas ficam horas alimentando essas baboseiras, comentando, compartilhando, dando crédito, fortalecendo. Às vezes eu acho essa multidão mais sem noção do que o influencer sem noção. Porque sem plateia, o show acaba. Mas enquanto tiver público pro truque, o mágico segue tirando coelho da cartola — mesmo que o coelho seja imaginário.
A geração é essa: a geração do influenciar. Influenciar o quê? Nem eles sabem. Só sabem que querem influenciar. O objetivo nem é mais ter conteúdo — é ter luz. Se o ring light tá bom, até heresia vira sabedoria.
E a autoridade? Meu Deus do céu. O sujeito acorda, mal abre os olhos, pega o celular, lê uma frase no Instagram e já solta:
— “Pessoal, deixa eu ensinar uma coisa pra vocês…”
Ensinar o quê, meu querido? Tu nem viveu ainda!
O pior é que as pessoas acreditam e compartilham. Hoje, o convencimento vale mais que o conhecimento. O currículo virou opcional e a experiência virou detalhe. Importa parecer que sabe — saber de verdade não dá tanto engajamento.
E eu fico pensando: como é que a gente foi parar aqui? Talvez porque todo mundo quer ser ouvido, mas poucos querem aprender. Todo mundo quer ensinar, mas quase ninguém quer caminhar. E aí, no meio dessa barulheira toda, sobra pouco espaço pro silêncio — e menos ainda pra sabedoria.
A mente é poderosa, mas o que a gente coloca dentro dela determina se vamos ser guiados pela verdade… ou por alguém com um ring light e muita autoconfiança.
E aqui, queridos leitores das minhas crônicas, entra um ponto que eu considero essencial: discernimento.
Eu zelo muito pelo aprendizado — muito mesmo. Mas zelo ainda mais por onde esse aprendizado está vindo.
Eu gosto de ouvir conselhos, aprender, crescer, mas antes de sentar pra ouvir alguém eu faço um crivo básico, quase um filtro espiritual e intelectual de controle de qualidade. Pergunto pra mim mesmo:
Essa pessoa tem mais tempo que eu no que ela vai ensinar?
Aprender direção com alguém que não tem habilitação é puxado.
Ela aprendeu como? Foi estudando? Com prática? Com vida vivida? Ou foi só vendo vídeo de 30 segundos no TikTok? Essa pessoa tem raiz no que diz, ou só tem discurso bonito? Teoria sem prática é complicado.
Ela tem histórico, caminhada, cicatriz, tropeço, vitória real? Ou é só alguém repetindo frases de efeito com dicção de coach? O que ela fala transforma vidas ou só gera engajamento? Se eu aplicar isso na minha vida, melhora ou piora? Simples assim: funciona no mundo real ou só no mundo das redes?
Esse crivo deveria ser obrigatório hoje em dia e não é julgamento — é autopreservação. Se a gente não aprender a separar ruído de sabedoria, qualquer opinião vira direção.
E a geração é essa: a geração do “influencer papagaio de pirata”. Influenciar o quê? Nem eles sabem. Só sabem que querem influenciar. O objetivo nem é mais ter conteúdo — é ter luz. Se o ring light tá bom, até heresia vira sabedoria.
E pra terminar — hoje tô inspirado! — virou tudo uma grande convenção de papagaio de pirata. Gente que se pendura em qualquer assunto, qualquer trend, qualquer “revelação” pronta, e, vira autoridade no assunto só pra sair na foto da vez. Repetem frases como quem ativa o modo avião do cérebro: sem raiz, sem vergonha e, pior, sem a mínima noção do ridículo.
Papagaio de pirata é isso aí — faz pose, abre o bico e imita. Só não entrega profundidade. É barulho barato tentando parecer sabedoria, de criatura que se acha capitão quando mal consegue se equilibrar no ombro dos outros.

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