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Seminário reúne mil pessoas em SC e sela pacto entre poderes para enfrentar o feminicídio

Um silêncio profundo tomou conta do auditório Antonieta de Barros, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), na manhã desta quinta-feira (6). Enquanto uma música lenta ecoava pelo espaço, nomes de mulheres vítimas de feminicídio começaram a aparecer no telão. Histórias interrompidas que representam a dimensão da violência contra as mulheres em Santa Catarina.

Durante o ato simbólico de abertura do seminário “Vivas e Decididas – Contra o Feminicídio”, 52 homens atravessaram o auditório carregando pares de sapatos vermelhos — símbolo internacional das mulheres assassinadas pela violência de gênero. À frente, uma faixa reforçava a mensagem central do evento: “A culpa não foi delas.”

O seminário, promovido pela Procuradoria da Mulher da Alesc, reuniu cerca de mil pessoas, entre representantes dos poderes públicos, universidades, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, para discutir responsabilidades e cobrar ações concretas no enfrentamento à violência contra a mulher.

Violência que começa antes do crime

Na abertura do evento, o presidente da Alesc, deputado Julio Garcia (PSD), destacou que o feminicídio é o ponto final de um ciclo de violência que começa muito antes do assassinato.

Segundo ele, os dados registrados no estado revelam a gravidade da situação.

“Em Santa Catarina tivemos 52 feminicídios no ano passado. Mas há um dado ainda mais alarmante: mais de 30 mil pedidos de medidas protetivas. Isso mostra que o feminicídio não começa no momento do crime, mas com agressões verbais, controle e invasão da privacidade”, afirmou.

Para o parlamentar, enfrentar o problema exige uma mobilização coletiva da sociedade.

Uma emergência pública

Durante o seminário, foram apresentados dados que evidenciam a dimensão da violência contra mulheres no estado. Em 2025, Santa Catarina registrou 52 feminicídios, incluindo o assassinato de três crianças.

No mesmo período, foram contabilizadas 255 tentativas de feminicídio, o segundo maior número do país. Além disso, mais de 31 mil mulheres solicitaram medidas protetivas contra companheiros ou ex-companheiros.

A procuradora da Mulher da Alesc, deputada Luciane Carminatti (PT), idealizadora do seminário, afirmou que os números não podem mais ser tratados como rotina.

“Esses dados estão nos jornais, nas redes sociais e na televisão. Nós nos chocamos, lamentamos, mas a vida continua. É justamente isso que precisa mudar. Não podemos naturalizar a violência”, declarou.

Segundo ela, o enfrentamento ao feminicídio exige mudanças concretas nas políticas públicas, como delegacias funcionando em horários adequados, fortalecimento da rede de proteção e ações educativas nas escolas.

Diagnóstico da violência

A procuradora-geral de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina, Vanessa Cavalazzi, explicou que a instituição está finalizando um diagnóstico aprofundado sobre a violência contra a mulher no estado.

O levantamento inclui a escuta de promotores de justiça em todas as regiões de Santa Catarina para compreender melhor o perfil das vítimas e as circunstâncias dos crimes.

“Não basta olhar apenas os números. Precisamos saber quem são essas mulheres, quem são as crianças envolvidas e entender como evitar que essas mortes aconteçam”, afirmou.

Entre as medidas previstas estão o fortalecimento de ações educativas nas escolas e a ampliação de programas de prevenção à violência.

Agir antes do feminicídio

A vice-presidente do Fórum Nacional de Violência Doméstica, Naiara Brancher, representante do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, destacou que o principal desafio é interromper o ciclo de violência antes que ele resulte em morte.

Ela ressaltou que Santa Catarina tem avançado na implementação de grupos reflexivos para homens autores de violência, iniciativa desenvolvida em parceria com universidades.

“Não se trata apenas de aumentar penas. O desafio é chegar antes do feminicídio”, afirmou.

Compromisso entre os poderes

Um dos momentos centrais do seminário foi a assinatura de um Termo de Compromisso entre os Poderes pela Vida das Mulheres em Santa Catarina.

O documento estabelece oito compromissos assumidos por diferentes instituições, incluindo atuação integrada, prioridade na prevenção da violência, produção e compartilhamento de dados e atenção às desigualdades que atingem mulheres em situação de maior vulnerabilidade.

As instituições terão dez meses para apresentar resultados concretos das ações assumidas.

Homens pelo fim da violência

O ato simbólico que abriu o seminário também marcou a participação de autoridades masculinas que, em silêncio e em sinal de respeito, caminharam pelo auditório carregando sapatos vermelhos.

O gesto simbolizou a união de homens e mulheres na luta contra o feminicídio e reforçou a mensagem central do evento: combater a violência contra a mulher é uma responsabilidade de toda a sociedade.

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