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Artigo: Estamos vivendo a “Era do tem quem”

Basta alguns minutos em uma fila de banco, no trânsito ou dentro de um ônibus lotado para perceber: a paciência virou artigo raro. Vivemos em uma sociedade cada vez mais acelerada, reativa e emocionalmente tensionada.
Mas por quê?
A resposta talvez esteja no que podemos chamar de “sociedade do tem que”. Um tempo em que a vida deixou de ser vivida no seu ritmo natural para ser guiada por uma sucessão de exigências invisíveis — porém implacáveis.
Não são apenas os adultos. Crianças, jovens e idosos estão igualmente expostos a esse ambiente de pressão constante. Nunca estivemos tão conectados — e, paradoxalmente, tão pressionados.
A internet, sem dúvida, representa um salto evolutivo extraordinário. Mas também se tornou um dos principais vetores dessa cobrança coletiva. A cada rolagem de tela, somos impactados por uma enxurrada de conteúdos: especialistas, mentores, influenciadores, histórias de sucesso, fórmulas prontas.
E todas elas carregam a mesma mensagem, explícita ou não:
você tem que ser melhor, tem que ganhar mais, tem que vencer, tem que se destacar.
Na chamada economia da atenção, ninguém pode ficar para trás. Os meios de comunicação precisam ser mais rápidos, mais virais, mais relevantes. Profissionais precisam performar. Empresas precisam crescer. Pessoas precisam aparecer.
A pressão está em todos os lugares.
Na escola, pela escolha do futuro.
Nos concursos, pela estabilidade.
Nas academias, pelo corpo ideal.
No empreendedorismo, pelo sucesso imediato.
Nos esportes, pela vitória a qualquer custo.
No futebol — um espelho poderoso da sociedade — essa tensão é ainda mais visível. Jogadores, técnicos e árbitros convivem com uma cobrança constante, amplificada pela mídia, pelas redes sociais e, mais recentemente, pelo crescimento das apostas esportivas.
A pressão deixou de ser apenas esportiva. Tornou-se financeira, emocional e simbólica.
Atletas são cobrados para vencer sempre, performar sempre, evoluir sempre. Não basta ser bom — tem que ser excelente o tempo todo. E, quando não conseguem, a cobrança vem em forma de críticas, exposição e, muitas vezes, ataques.
Casos recentes evidenciam esse cenário. Reações explosivas dentro de campo, gestos impulsivos e comportamentos extremos não surgem do nada — são sintomas de um ambiente de alta pressão contínua.
Não por acaso, clubes investem cada vez mais em acompanhamento psicológico. A saúde mental deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade básica.
E isso não vale apenas para o esporte.
Vivemos uma epidemia silenciosa de ansiedade, estresse e esgotamento. Talvez, no passado, isso já existisse — mas era menos percebido, menos diagnosticado e menos exposto. Hoje, tudo é mais intenso: mais cobrança, mais comparação, mais visibilidade.
Um dos exemplos mais emblemáticos desse novo tempo foi a decisão da ginasta Simone Biles, que, durante os Jogos de Tóquio, abriu mão de competir em algumas provas para preservar sua saúde mental. Um gesto que, mais do que surpreender, escancarou uma realidade global.
O grande desafio da nossa era talvez seja justamente esse: encontrar equilíbrio.
Equilíbrio entre desempenho e bem-estar.
Entre ambição e saúde.
Entre o que o mundo exige e o que a mente suporta.
Porque, diante de tantas imposições, talvez seja hora de inverter a lógica.
Mais do que tudo o que “temos que” ser, fazer ou conquistar, há algo que deveria vir antes:
cuidar da mente.
Evitar o estresse crônico, a ansiedade constante, o esgotamento emocional. Olhar para si e para quem está ao redor.
Se existe uma prioridade real neste tempo de excessos, ela é clara:
não adoecer tentando atender a todas as expectativas.
Porque, no fim das contas, em meio a tantos “tem que”, existe apenas uma exigência que realmente importa:
continuar inteiro.

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