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Em tempos de pandemia, melhorar a comunicação com a imprensa só ajuda

A pandemia causada pela propagação do novo coronavírus fez com que o planeta, praticamente, virasse de “cabeça para baixo”.

Não há certeza de nada, apenas de que o mundo teve milhões de pessoas contaminadas, e que algumas destas, em especial do chamado ‘grupo de risco’, não terão a mesma sorte do que a grande maioria de pessoas que irão contrair o covid-19. Muitas destas, perderão a vida.

Desde quando o vírus foi identificado na China, em novembro de 2019, não existe mais paz, não existem mais certezas. Não há mais garantias de emprego e renda, de quais empresas e negócios irão de fato sobreviver a esta pandemia.

É neste cenário que o olhar do mundo todo passou a se fixar num dos setores mais injustiçados, o da saúde.

Uma fala que guardei no início do estado de calamidade pública, decretado pelo governo estadual, foi dita pelo fisioterapeuta Kristian Souza, que assumiu o posto de coordenador da Equipe Multidisciplinar Hospital Regional de Araranguá. Quando a população começou a fazer homenagens aos profissionais de saúde, que estavam na linha de frente, ele disse que estes heróis no pico da pandemia seriam criticados.

Na verdade, já eram criticados. Quando a família é bem atendida e dá tudo certo, geralmente não sai por aí alardeando isto, mas quando há problemas a gritaria é grande.

 

 

Risco gravíssimo

E chegamos a este momento, em que a situação da Amesc passa a ser considerada de ‘risco gravíssimo’. Turvo é o primeiro município da decretar lockdown, neste sábado (25) e domingo (26). Os demais municípios decretaram medidas mais restritivas.

Turvo comprou pelo menos 400 testes rápidos para testar os sintomáticos. Araranguá, de acordo com a secretária de Saúde, Evelyn Elias, tem pelos 700 testes (coleta de material na garganta) para fazer. Tem 10 profissionais (médicos, enfermeiros e técnicos) no Centro de Triagem.

“Os casos leves e médios, nós testamos no munícipio, e os graves são no HRA. É o protocolo”, contou.

Mesmo assim, Evelyn disse que o setor está monitorando o grupo de risco e recomendando ao máximo o isolamento social.

“Também são testados os profissionais da linha de frente e as pessoas que conviveram com pacientes infectados. Os positivos são isolados e cumprem quarentena (14 dias). O protocolo é testar quem tem sintomas a mais de cinco dias, e quem procura ajuda no início dos sintomas recebe a recomendação de ficar em casa uma semana antes de fazer o teste. Se passar deste prazo, não adianta mais, o teste precisa ser no pulmão e depende de intubação”, continuou. Neste caso é que o paciente precisa de ventilação mecânica, sedação e de leito de UTI.

De acordo com a secretária Evelyn, Araranguá recebeu de verbas para o combate ao covid-19 três aportes financeiros. Um no valor de R$ 178 mil e outro de R$ 390 mil direto na conta e um terceiro, de R$ 1,2 milhão, para o Fundo Municipal de Saúde. Este último, para recomposição das perdas advindas da queda de arrecadação, que atingiu a todos os municípios do país, e é um recurso do orçamento federal.

 

 

E a previsão se cumpre!

Chegou o momento em que os profissionais estão cansados, muitos deles exaustos. Cansaço físico e mental pela pressão que esta pandemia exerce sobre o setor. É assim em praticamente toda a rede, municipal, estadual e federal.

A explicação é simples. Os profissionais da linha de frente estão lidando com um vírus mais agressivo do que se tinha contato, e que, em muitos casos, está levando à morte de pessoas, com ou sem outras patologias, também chamadas de comorbidades ou doenças pré-existentes.

Estamos vivendo o novo normal, onde nada é mais como era antes.

Tanto é verdade, que o Hospital Regional de Araranguá, tem pelos menos trinta colaboradores do Instituto Maria Schmitt afastados por estarem infectados ou com suspeita de covid-19.

 

 

Solidariedade e empatia

A maioria dos pacientes e familiares compreendem o momento, se solidarizam com os profissionais da saúde. Mesmo assim, as pessoas que sentem os efeitos desta redução do quadro no HRA, ou, que acabam não recebendo o tratamento que estava havendo antes da pandemia, acabam se queixando. Ou nas redes sociais ou aos órgãos de imprensa.

E a missão dos meios de comunicação é servir de elo entre os diversos atores que compõe a Opinião Pública. Conversar, dialogar e ouvir as partes é parte do nosso trabalho.

Não é justo que haja uma via de mão única. É preciso que o pessoal da saúde entenda isto. Não é porque é um serviço essencial, que a imprensa tem “que passar pano” ou criar “cortina de fumaça” para ninguém. Há o direito do cidadão de ser informado.

Mesmo que haja uma informação oficial, os veículos tem a obrigação de ter o contraditório. Afinal de contas, todos sabemos que os problemas na saúde já existiam, que Araranguá tinha apenas 10 leitos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o que era muito pouco. Assim como ter apenas seis leitos de UTI neo-natal também é muito pouco.

 

Críticas sempre existirão

Acompanho, dentro da limitação que a pandemia nos impôs, os bastidores da saúde municipal e, em especial, a regional. E o Hospital Regional de Araranguá é o maior de todos, um dos maiores hospitais públicos do Estado. Está “terceirizado” a uma Organização Social de Saúde porque o Estado admite que é incompetente para gerir. Por isto, que passa para a iniciativa privada.

A gestão do IMAS, até a pandemia, estava dentro da normalidade, mas agora, diante do momento, está sim com dificuldades. Mas, depois volta ao normal.

O que não significa que seja um demérito a atuação dos profissionais. Pelo contrário. Quem acompanha sabe que o Dr. Bonfada, Dr. Eduardo Ali, Dra, Mariceli, e toda a equipe, tem trabalhado muito para melhorar a situação.

Para quem está vivendo a pressão do sistema, que está empenhado em passar pela pandemia, é compreensível que não receba bem as críticas.

 

Direito à informação

Em duas reportagens divulgadas esta semana, uma no portal da Post TV e outra no portal W3, é possível ver um traço comum. Há uma dificuldade de receber informações oficiais do Hospital Regional de Araranguá.

A Assessoria de Comunicação do Instituto Maria Schmidt alega que segue o protocolo do Governo do Estado e que não pode repassar informações.

A imprensa busca outras fontes, mesmo dentro das instituições, e até da própria direção, que não podem responder pelo HRA.

Se houvesse um canal direto com a população, algum boletim informativo diário, como o da Amesc por exemplo, muitas queixas poderiam ser resolvidas sem muito alarde e poderiam até virar notícia, não de problemas, mas de casos de sucesso na solução de problemas.

Questionei o Sindisaúde neste sábado (25) sobre a matéria da Post TV. E o diretor Cléber Cândido disse:

“Isso, recebemos várias reclamações, e a gerência justifica dificuldade de contratação de profissionais, já que tem mais de 30 afastados por ser do grupo de risco, e com suspeita de covid. Mas, essa situação não é só do regional, a dificuldade é em toda região”.

A possibilidade de greve, enquanto durar a pandemia, está descartada. Até porque estamos em tempos de calamidade a não é permitido a greve, mas também é fato, como informado na matéria da Post TV, que a negociação entre os gestores e o sindicato paralisou quando iniciou o problema.

 

O QUE DISSE O ESTADO?

 

A matéria publicada dia 23 de julho pela Post TV, com o título “Saúde do HRA é crítica: leitos de UTI ocupados e trabalhadores sobrecarregados”, recebeu a resposta da Secretaria de Estado da Saúde.

http://post.tv.br/2020/07/23/saude-do-hra-e-critica-leitos-de-uti-ocupados-e-trabalhadores-sobrecarregados/

 

“O Estado de Santa Catarina foi um dos primeiros do país a adotar medidas restritivas para conter o avanço do coronavírus, em decreto estadual que passou a valer no dia 17 de março. Essa medida foi fundamental para evitar a disseminação do novo coronavírus em Santa Catarina. Desde então, o Governo do Estado, por meio do Centro de Operações de Emergência em Saúde (COES), monitora constantemente a evolução dos casos da doença e taxa de ocupação de leitos de UTI no estado. Como forma de tomar decisões mais adequadas a cada região e compartilhar as definições, no início de junho, o Governo do Estado disponibilizou aos municípios uma ferramenta online com informações detalhadas sobre a situação do vírus. Além disso, no dia 17 de julho, o governador Carlos Moisés decretou novas medidas restritivas para promover o isolamento social em sete regiões que estavam classificadas em situação gravíssima, de acordo com a matriz de risco regionalizada. As ações foram voltadas a áreas com alto risco de transmissão do vírus, como transporte coletivo urbano municipal e intermunicipal de passageiros e espaços públicos de uso coletivo”.

 

Houve um bom trabalho

Tanto o presidente licenciado, Ricardo Ghellere, quanto o diretor técnico, Eduardo Ali Domingues, tem trazido algumas informações, mas a falta de informação oficial é que tem causado algumas dúvidas.

A gestão do IMAS atuou inegavelmente para fazer funcionar 20 leitos de UTI, o dobro do que havia antes. Tanto é verdade que, até equipamentos bastantes usados (precários) enviados pelo Estado, foram recuperados para fazer aumentar o número de respiradores artificiais.

O Governo do Estado chegou a transformar o Hospital Regional de Araranguá em referência para covid 19, mas, depois voltou atrás, após a “chiadeira” dos comandantes da saúde regional, tema que foi tratado em primeira mão pela mesmo portal da Post TV e por esta coluna.

Em uma destas notas, um membro da direção confirmou a gravidade da situação.

“Quando surge vaga, logo é preenchida, seja com pacientes covid, seja por outras patologias”.

 

Na rede social pode?

O mais estranho é que os profissionais de saúde do Hospital Regional de Araranguá, a quem o IMAS restringe a fala à imprensa, não são repreendidos quando usam as suas redes sociais para rebater a mesma imprensa.

O fisioterapeuta Kristian Souza, coordenador Equipe Multidisciplinar do Hospital Regional de Araranguá, escreveu em suas redes sociais:

“Gostaria de esclarecer sobre uma reportagem de um órgão de imprensa local, sobre notícias não verdadeiras e irresponsáveis sobre o HRA. Antes mesmo do primeiro paciente covid 19 na nossa unidade, trabalhamos e estudamos incansavelmente para planejar, elaborar fluxos e protocolos pensando nos mais diversos cenários com relação a pandemia. Criamos entradas diferentes para os pacientes, setores diferentes para os pacientes covid e não covid, equipes diferentes… Sempre baseado em evidências, respaldo técnico e responsabilidade! Tudo isso, para proporcionar aos pacientes e nossos colaboradores, segurança! Foram feitos treinamentos, fornecidos equipamentos de qualidade, tanto de proteção individual como de manejo aos pacientes. Colaboradores com qualquer sintoma gripal são afastados e testados. Mantemos constantes reposições de quadro pessoal (óbvio, que por questões legais e burocráticas, não se consegue repor na mesma velocidade dos afastamentos, já que não podemos prever…) entre outras ações! Vivemos os dias mais difíceis de nossas vidas, estamos nos esforçando ao máximo para dar as melhores condições de tratamento aos pacientes e de trabalho aos colaboradores! As rotinas de todos os hospitais do mundo foram alteradas, é exaustiva, angustiante e alcançar 100% de satisfação é impossível. Mas, estamos nos doando ao máximo! Ler esse tipo de notícia, nos deixa nesse momento de fragilidade muito magoados, tristes e decepcionados! Quero aqui assegurar a população de Araranguá e região, que esse tipo de notícia não deve gerar insegurança nem medo nas pessoas, pois, nós tentaremos, dentro das nossas limitações, proporcionar o melhor atendimento nesse momento difícil em que vivemos! Se teve viés político, foi ainda mais cruel. Nesse momento de pandemia, divulgar esse tipo de notícia é prejudicial a todos nós. Que Deus nos ilumine e que continue dando forças a todos os profissionais, principalmente da linha de frente!”.

Qual o problema que a direção vê em que os profissionais possam se manifestar? Esta fala do Kristian demonstra o contrário. Que só ajudaria no trabalho da imprensa, que, por sinal, é considerada atividade essencial, tanto nos decretos do governador federal, quanto estadual, quanto municipal.

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