“Um olhar de nós dois”, de Marcelo Camara, publicado pela Editora Flyve, é um mergulho sensível…
Magia, amor e identidade: “Cedro Carmesim” marca nova fase da fantasia brasileira
Na tradição da fantasia literária, alguns livros se limitam a oferecer mundos
imaginários e aventuras. Outros, mais ambiciosos, utilizam o fantástico como
ferramenta para discutir poder, identidade e pertencimento. É nesse segundo território
que se insere Cedro Carmesim: Crônicas de Keierth, romance da escritora Ingrid
Gomm, publicado em 2026, pela Editora Flyve, que apresenta ao leitor um vasto
universo, marcado por linhagens mágicas, guerras e estruturas sociais enraizadas.
Logo nas primeiras páginas, o livro estabelece o tom de sua narrativa ao
apresentar um panorama histórico do mundo de Keierth, marcado por grandes guerras
entre reinos e pela ascensão de diferentes casas reais. Esse prólogo, que remete aos
antigos pergaminhos e tratados políticos, cumpre um papel fundamental: situar o leitor
em uma ambientação em que história, religião e a magia caminham lado a lado.
É nesse cenário que surge Amana, protagonista cuja trajetória concentra boa
parte da força emocional do romance. Jovem herdeira de uma linhagem mágica ligada
ao Cedro Carmesim, ela enfrenta um ritual decisivo que determinará seu futuro dentro
do clã. O florescimento da magia – esperado como um destino quase inevitável – torna-
se o eixo central de sua jornada. Quando esse momento falha, a narrativa desloca-se da
expectativa heroica para um drama emocional.
Mais do que uma história de magia, o livro explora o peso das tradições e das
expectativas familiares. Em Keierth, o destino de cada indivíduo está diretamente ligado
à sua linhagem e à herança mágica que carrega. Não florescer significa, para Amana,
não apenas perder um poder ancestral, mas também ver desmoronar o lugar que lhe
havia sido prometido dentro de sua comunidade.
Um dos pontos mais interessantes da obra é a construção de seu universo.
Gomm investe na criação de um mundo detalhado, com suas próprias tradições, idiomas
ritualísticos e estruturas políticas. O Cedro Carmesim, símbolo central da narrativa,
representa não apenas a magia ancestral, mas também a continuidade das linhagens que
moldam a sociedade daquele mundo.
Ao mesmo tempo, o romance não se limita à dimensão épica. Há espaço para
relações pessoais, conflitos familiares e dilemas íntimos. Personagens como Iúna, irmã
de Amana, e Potira, líder do clã, ampliam o alcance da história ao representar diferentes
formas de lidar com tradição, poder e destino.
A escrita de Ingrid Gomm equilibra bem a construção de mundo com o
desenvolvimento emocional das personagens. A autora alterna momentos de
introspecção com cenas que revelam o funcionamento político e espiritual daquele
universo, criando uma narrativa envolvente que dialoga tanto com leitores de fantasia
quanto com aqueles interessados em histórias sobre identidade, gênero e transformação.
Cedro Carmesim surge, assim, como uma obra que aposta na tradição da fantasia
épica sem abrir mão de conflitos humanos e universais. Ao acompanhar a jornada de
Amana, o leitor encontra não apenas um mundo de magia e linhagens ancestrais, mas
também uma reflexão sobre aquilo que acontece quando o destino que nos foi
prometido simplesmente deixa de existir.
Mais do que contar uma história fantástica, Ingrid Gomm propõe uma pergunta
ao longo de suas páginas: o que resta quando o futuro que imaginávamos para nós
deixa de ser possível?


Comments (0)