João Branco abriu a plenária e Igor Coelho encerrou a noite em Criciúma; programação do dia…
Entre o robô e o aperto de mão, o Empreende SC abre em Criciúma lembrando que o futuro ainda depende de gente
Por: Patrícia Patrício
Com tecnologia por todos os lados e conversas correndo entre plenárias, arenas e corredores, o primeiro dia do evento mostrou que a inteligência artificial depende das conexões humanas.
Havia um robô nos corredores do AM Master Hall nesta quarta feira, 18 de março, circulando com uma naturalidade quase irônica entre milhares de pessoas no Empreende SC, evento já consagrado como um dos mais relevantes para o setor de negócios e inovação de Santa Catarina. A cenografia futurista, desenhada em palcos high tech e palestras simultâneas acompanhadas por fones de ouvido, ganhava densidade em uma operação precisa, ampla e visualmente impactante, distribuída entre arenas, plenárias, palcos, salas de network e inovação e experiências pensadas para muito além da logística. Tudo parecia costurado para unir, com rara harmonia, o futuro tecnológico ao passado humano no exato corpo do presente.
Nos múltiplos ambientes de conteúdo e no vocabulário empresarial, a inteligência artificial corria entre os ouvidos não mais como hipótese vaga e distante, mas como ferramenta inerente e concreta, ainda tímida diante da força e da imensidão que carrega.
Ainda assim, seria superficial reduzir o primeiro dia a uma vitrine de inovação. O que deu profundidade ao evento foi justamente o contraste. No centro de toda aquela linguagem futurista, permanecia algo que nem mesmo o mercado mais tecnológico do mundo conseguiu, e nem conseguirá, substituir: o contato humano real. Gente se reconhecendo, retomando conversas, trocando leitura de cenário, validando afinidades, transformando presença em possibilidade. No fim, o que sustentava a atmosfera do evento era uma evidência antiga, mas intacta: nenhum salto tecnológico se sustenta sem vínculo.
O velho networking, embalado nos últimos anos como ritual frio de troca comercial, parecia ali ganhar outro nome e outro peso: conexão humana. Não aquela performada, apressada, protocolar. Mas a conexão calorosa, construída no tempo da escuta, na disposição genuína, no interesse sem cálculo imediato. Vinham à tona certos valores do passado, presença, constância, confiança, memória, agora reposicionados como necessidade de sobrevivência em um mercado que acelera demais e aprofunda de menos.
Foi nessa frequência que encontrei Carlos Antônio Ferreira. Há oito anos à frente da Satc e há cinco na reitoria, ele carregava consigo não apenas a fala de um gestor, mas a memória de uma instituição que aprendeu cedo a conversar com o futuro. Fundada no fim dos anos 1950 e consolidada em 1963 com sua escola industrial técnica, a Satc já era, à sua maneira, tecnologia quando tecnologia ainda tinha outro nome. O laboratório de marcenaria daquela época, contou ele com entusiasmo, deu lugar ao Pronto 3D, primeiro laboratório de prototipagem da região. A frase veio quase como quem organiza o tempo com delicadeza: o Pronto 3D é a evolução da marcenaria; a tecnologia dos anos 60 encontrou outra forma de existir.
Falávamos disso diante de um café, sem pressa e com presença plena, quando ele resumiu em poucas palavras aquilo que o evento inteiro parecia tentar provar: o futuro pede conexões. Não como slogan. Como diagnóstico. São elas, reforçou Carlos, que vão determinar o sucesso, a perenidade e a longevidade de um negócio. Talvez tenha sido esse o gesto mais coerente do dia.
Enquanto o palco falava sobre transformação, ele a praticava ali, no modo de estar. Houve aperto de mão firme, riso solto, pausas para comentários aleatórios, foto registrada sem cerimônia. Houve, sobretudo, aquilo que tanta tecnologia ainda tenta simular sem conseguir reproduzir por inteiro: presença humana verdadeira.
Mais tarde, sentei com meu colega de infância e hoje colega da Aratec, Procópio Caetano. Sérgio Vendramini, CEO da Sysdata, conexão que ganhei no último trimestre, se juntou à mesa e por ali ficou, celebrando, como sempre, o domínio raro do networking humano.
Os assuntos migravam com naturalidade de fatos pontuais e pessoais para viagens, negócios, opiniões analíticas e honestas sobre os projetos lançados ali sobre a mesa, planejamento dos próximos deslocamentos, estruturação de equipe e a solidez de uma trajetória construída com esmero ao longo de mais de 30 anos. Saímos dali trocando abraços e já com o próximo jantar agendado, desta vez pautado pelos gostos em comum eu e sua esposa.
No meio dessa conversa, Sérgio deixou escapar uma síntese precisa do tempo em que estamos vivendo: a mudança tecnológica acelerou brutalmente com a inteligência artificial. Em contrapartida, há uma resistência gigante por parte do setor empresarial em aderir a ela com qualidade e profundidade, resumindo sua potência à gestão de pequenas urgências, quando a mesma pode entregar uma personalização muito mais ampla do negócio, atravessando a gestão operacional, estratégica, estrutural, financeira e logística. Procópio fechou o assunto com uma observação simples porém pulsante: muita gente ainda acredita que a IA funciona sozinha, quando, na verdade, ela precisa se conectar com pessoas para gerar resultado.
Saí dessas conversas com a impressão de que o primeiro dia do Empreende SC não foi apenas sobre futuro. Foi sobre mediação. Sobre a ponte delicada entre aquilo que impressiona e aquilo que, de fato, transforma. A tecnologia estava por toda parte, sim. Nos robôs, nas telas, nos palcos, nos fones, nas falas. Mas o que a organizava em sentido ainda vinha das pessoas. Do repertório. Da escuta. Da confiança. Da troca.
Talvez esteja aí a imagem mais precisa desta quarta feira em Criciúma. Entre o robô e o aperto de mão, o Empreende SC inaugurou a edição de 2026 com um retrato bastante fiel do nosso tempo: visualmente no futuro, operacionalmente no presente e, em sua camada mais profunda, sustentado por uma lógica antiga e insubstituível, a de que os negócios, antes de serem tecnologia, precisam de pessoas.


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