A disputa política brasileira não terminou com a apuração das urnas. Pelo contrário, os acontecimentos recentes demonstram que o país ainda terá um longo caminho pela frente para reconstruir pontes, enfrentar a intolerância e compreender as profundas divisões que atravessam a sociedade.
O primeiro passo, entretanto, exige uma dose de autocrítica. Estar unido em torno de uma mesma causa não significa pertencer a um grupo de pessoas sem defeitos, donos da verdade ou detentores exclusivos da razão. O campo progressista, assim como qualquer outro segmento político, também precisa reconhecer suas contradições. Não basta condenar listas de exposição e perseguição política se, em outros momentos, seus próprios integrantes defendem práticas semelhantes contra quem pensa diferente.
A intolerância não deixa de ser intolerância quando muda de lado.
A recente circulação de lista com nomes de pessoas e estabelecimentos comerciais supostamente identificados com determinada posição política evidencia um problema que ultrapassa as diferenças ideológicas. O direito de escolher, manifestar opiniões e defender posições políticas não pode resultar em ameaças, constrangimentos ou tentativas de prejudicar a atividade profissional e econômica de cidadãos.
Medidas judiciais contra os responsáveis por práticas dessa natureza são legítimas e necessárias, quando cabíveis. Mas a resposta não pode se limitar aos tribunais. A disputa também precisa acontecer no campo das ideias, da informação e da participação democrática.
Há um desafio ainda maior: compreender o comportamento de milhões de brasileiros que aderiram a discursos radicalizados. Em vez de tratar todo adversário como inimigo irrecuperável, é preciso reconhecer que parte dessa população foi exposta a um ambiente de desinformação, medo e radicalização. O enfrentamento desse cenário exige educação, informação, diálogo e, em determinadas situações, atenção à saúde mental, sem transformar divergências políticas em diagnósticos ou patologias coletivas.
As redes sociais serão um dos principais campos dessa disputa. A esquerda e o centro democrático precisam compreender que não basta ocupar espaços durante o período eleitoral e depois desaparecer. É necessário manter presença permanente, produzir conteúdo, apresentar argumentos e participar das discussões que movimentam a sociedade.
Associações de moradores, entidades de classe, organizações não governamentais, movimentos comunitários e instituições sociais são espaços legítimos de participação. A democracia não se constrói apenas nos partidos, nos gabinetes ou nos palanques. Ela também se fortalece no cotidiano das comunidades.
O debate sobre a divisão social brasileira também precisa considerar as desigualdades econômicas. Existe uma contradição recorrente na política nacional: durante as campanhas, trabalhadores de diferentes condições sociais são convocados a caminhar juntos, mas, depois das eleições, nem sempre recebem o mesmo tratamento. O discurso de união pode esconder preconceitos de classe, raciais e regionais que permanecem presentes nas relações sociais.
Um episódio aparentemente simples ajuda a ilustrar essa contradição: um trabalhador que caminha pela rua, vestindo a camisa da seleção brasileira, encontra um casal em melhores condições econômicas e manifesta entusiasmo político. O casal concorda, sorri e segue viagem em seu automóvel de alto valor. A cena, por si só, não permite conclusões sobre aquelas pessoas, mas simboliza uma questão importante: será que a união defendida nos palanques permanece depois que os votos são contabilizados?
A democracia brasileira também precisa reconhecer a diversidade de seu povo. Nordestinos, sulistas, trabalhadores urbanos e rurais, empresários, religiosos, ateus, judeus, palestinos, brasileiros de diferentes origens e pessoas de diferentes convicções fazem parte do mesmo país. Nenhuma região, classe social ou corrente ideológica tem o direito de reivindicar para si a propriedade do Brasil.
A vitória eleitoral de um projeto político não representa autorização para humilhar os derrotados. Da mesma forma, a derrota não justifica perseguições, ameaças ou tentativas de deslegitimar a escolha popular.
Também merece reflexão o papel das instituições religiosas. A fé, quando orientada pelo amor ao próximo, pela solidariedade e pelo respeito, pode contribuir para aproximar pessoas. Entretanto, quando discursos religiosos são utilizados para alimentar o ódio, estimular a perseguição ou justificar a violência contra adversários, há um distanciamento dos próprios princípios de fraternidade que deveriam orientar essas comunidades.
O Brasil não precisa de mais intolerância, independentemente de sua origem ideológica ou religiosa. Precisa de lideranças capazes de compreender que adversários políticos continuam sendo cidadãos, com direitos e dignidade.
O próximo ciclo político exigirá mais do que mobilização eleitoral. Exigirá organização social, presença nos territórios, capacidade de comunicação e disposição para enfrentar o debate público sem reproduzir os mesmos métodos que se pretende combater.
A democracia não se sustenta apenas quando vence o próprio grupo. Ela se prova justamente quando reconhece o direito de existência, expressão e participação daqueles que pensam diferente.
No fim, o Brasil pertence a todos. E nenhuma disputa política será verdadeiramente democrática enquanto uma parcela da população acreditar que tem o direito de excluir outra da vida social, econômica ou política do país.













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