UNESC — EAD

Crônica do Busão

Quando decidi, a pedido dos leitores, postar as crônicas cedinho no canal de whatsapp Descoisando o Coiso (de seg. à sex. às 07h03), a primeira coisa que me veio à cabeça foi a galera do busão. Sabe aquele pessoal que acorda antes do sol nascer? Aqueles que já estão no terminal quando até o galo ainda tá no soneca?
Pois é, esse povo já começa a vida no modo “sobrevivência” antes das seis da manhã.

Eu e minha esposa, a Cris, trabalhávamos no mesmo prédio no centro de Curitiba. A gente acordava às quatro. QUATRO DA MANHÃ! Só pra tu ter uma ideia, nesse horário o corpo ainda tá processando o café da tarde do dia anterior. E, no inverno, fazia tanto frio que até pinguim pedia misericórdia.
A Cris, por sinal, era engenheira responsável pela remoção de resíduos sólidos e líquidos — ou, como a gente chama, a tia da limpeza. E eu era diretor especialista em interceptação de pessoas e objetos não identificados — no caso, porteiro.

A gente ia pro trabalho juntos, sempre pegando o mesmo ônibus, na mesma hora, sentando no mesmo banco. Era nosso “Uber coletivo com 40 desconhecidos sentados e uns mil em pé ”.
O busão da madrugada é um documentário vivo sobre a humanidade.
Tinha a turma das senhorinhas, que não se conheciam, mas sabiam mais da vida uma da outra do que a própria família. Briga com filho, reclamação do salário, aumento do valor das passagens, receita de bolo. Inclusive, aprendi a fazer bolo de cenoura, de chocolate, light, só de ouvir a conversa da senhorinha do banco da frente.

Nós decoravamos todo mundo que subia no busão e sabia direitinho em qual parada cada um entrava. Aí, quando minha esposa ou eu não víamos algum deles, já ficava a pergunta no ar: “E aquela senhorinha do gorro amarelo gema de ovo, sabe? Será que faltou hoje?” — “Ah, deve ser folga, né?” — Pois é, só o que a gente podia fazer era supor!
Tinha o time do fone de ouvido… e o do “fone invisível”, porque a pessoa não usava fone, mas o ônibus inteiro sabia que ela era eclética: num dia escutava sertanejo raíz do João Mineiro e Marciano, no outro era Alok — dependia muito da vibe do momento.

E o cara dos vídeos engraçados? A gente ria junto. O conteúdo era bom, mas acho que a graça maior era ver o sujeito rindo sozinho, com aquela respiração de “porquinho feliz”.
O motorista era um clássico: “Fala meu querido, mais um dia hein!?” — parecia gravado. E tinha o cara do livro. Todo santo dia, lá estava ele, folheando as páginas com uma concentração digna de monge. Até que um dia percebi: fazia três meses que ele estava no mesmo livro. Ou era um clássico de 8 mil páginas, ou ele lia uma palavra por semana.
Tinha os que falavam alto, os que dormiam, os que fingiam estar dormindo para não ceder lugar, e, claro, os perfumados que exalavam seus aromas adocicados — que iam desde Malbec até talco Vinólia — pelos corredores do ônibus. Às vezes aparecia alguém com um cheiro natural vindo debaixo dos braços tão potente que deveria vir com aviso de “risco biológico”. Mas a mistura de aromas no ar sempre superava esses inimigos do roll on.

O mais curioso é que aquela galera toda não sabia nome, sobrenome, endereço… mas se conhecia. Tinham uma conexão invisível. Era quase uma família de minutos: entrava, viajava junto, e cada um descia no seu destino. Mesma direção, histórias diferentes.
Até que um dia eu e a Cris paramos de trabalhar juntos… porque na empresa descobriram que o porteiro tava “envolvido” com a tia da limpeza. Sim, escândalo! Tinham até testemunhas de que a gente andava de mãos dadas! E até provar que éramos casados há mais de vinte anos, a fofoca já tinha virado novela mexicana no setor.

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Sadi Ani’guel Colunista Sadi Ani’guel Escritor e cronista, Sa’di Aniguel atua na área de comunicação e imprensa desde 2003, inicialmente como diagramador e designer gráfico, trabalhando na produção de jornais, revistas e livros. Ao longo de mais de duas décadas, acompanhou de perto a construção editorial de diferentes publicações, até descobrir, há pouco mais de um ano, uma nova forma… Ver colunas →
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