Em entrevista exclusiva, a parlamentar catarinense fala dos s desafios de ser mulher e dos embates com os dirigentes de seu partido

 

Entrevista – Everaldo Silveira / Araranguá

 

Ana Paula da Silva, a Paulinha, foi eleita em 2018 como a deputada estadual mais bem votada pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), a frente de outro pedetista com cadeira no parlamento catarinense, deputado Rodrigo Minotto.

Seu nome ganhou notoriedade estadual quando ela criou, em 2013, quando era prefeita de Bombinhas, a TPA (Taxa de Preservação Ambiental), ao estilo do que se cobra na paradisíaca Ilha de Fernando de Noronha.

Como deputada Paulinha, inquieta, Paulinha virou líder do governador Carlos Moisés (PDT) na Assembleia Legislativa, e sempre disse que teve o apoio de Minotto para cumprir a missão.

No entanto, o comando estadual do partido, nas mãos de Manoel Dias, acabou se colocando contra sua posição de ocupar função para um governo de direita, o que lhe rendeu uma punição do Diretório Nacional.

Ela falou ao jornal Enfoque Popular e Post TV sobre diversos temas que permearam seu mandato. Acompanhe: 

 

COLUNA – Você acha justa a suspensão imposta a você pela direção nacional do PDT por ter sido líder do governo na Alesc?

DEPUTADA PAULINHA – O fato não é o que eu acho ou deixo de achar, porque uma ação injusta não é uma questão de opinião. É uma questão de valores, de caráter. Estou sofrendo uma implacável perseguição por parte de alguns líderes do PDT desde a minha eleição de deputada estadual, essa que é a verdade. A suspensão é só mais um de tantos outros que já se seguiram. Porque eu não me curvo a interesses de poucos e ponto. Não fui eleita pra passar a mão na cabeça de safado. E não é porque sou de um partido político que vou ser obrigada a fazer o que é errado eticamente, pra preservar a vontade de poucos. Importante dizer também que o PDT é muito maior do que isso, e tem muita gente espetacular nesse grupo. E é por eles que ainda sigo lutando.

 

COLUNA – Em algum momento você se arrependeu de ter ocupado o posto de líder do governo?

DEPUTADA PAULINHA – Jamais. Até porque fui a primeira mulher catarinense a ocupar essa função, o que, em meu ver, foi uma importante deferência do Governador Moisés a todas as mulheres catarinenses. Sou grata a ele por ter confiado em minha capacidade, o que é raro na política quando se trata da figura feminina. De todo o modo, foi uma ascensão à liderança diferente dos costumes até então, já que não negociamos cargos, espaços políticos, recursos, nada. Moisés me chamou para a tarefa de auxiliar no diálogo com os colegas parlamentares, missão esta que ficou comprometida com o advento da pandemia, agravada pela crise política. Mas isso já é outra história.

 

COLUNA – Você aceitou o convite de ser líder em consenso com seu colega de bancada, o deputado Rodrigo Minotto? Se foi, por que Manoel Dias, que é aliado dele, ficou contrariado? Era uma posição do Maneca ou era do Diretório?

DEPUTADA PAULINHA – Eu jamais teria aceitado a liderança sem a anuência do Rodrigo. Ele inclusive me estimulou a aceitar em várias ocasiões. O próprio Manoel sabia que estávamos bem próximos do Moisés, pois ele estava atendendo pautas nossas com bastante frequência, como a ampliação dos recursos para estudantes universitários e a liberação de verbas para obras a pedido do Rodrigo. No momento em que recebi o convite liguei para o Manoel, mas ele não atendeu. Daí por diante, adversários internos cujo caráter é mais do que duvidoso aproveitaram esse episódio para criar um clima de desconforto, que se seguiu de vários atos atrapalhados da direção. Manoel chegou a nomear pessoas sem a menor condição como representantes de movimentos que nem existiam no partido, apenas para angariar mais votos na direção estadual, na antevéspera de uma reunião, para garantir a mim uma punição. Uma vergonha. Lamento muito que o Manoel, a quem sempre tive consideração como um pai, termine sua história de vida partidária desse jeito. Lamento muito mais por ele do que por mim.

 

“Lamento muito que o Manoel, a quem sempre tive consideração como um pai, termine sua história de vida partidária desse jeito”

 

COLUNA – A senhora aceita a punição (90 dias) e segue no PDT? Ou tenta ganhar o comando do partido no estado?

DEPUTADA PAULINHA – Estou contestando na justiça a punição porque ela é uma vergonha. Não fiz nada para merecer essa suspensão e não vou aceitar isso. Quanto ao partido, o que posso dizer é que liderança não é algo que se impõe. Posso não ter o comando partidário, mas tenho o respeito e a admiração dos meus colegas, e em larga escala. E é isso que me interessa. Ser dirigente partidário nomeado, ou por conta de negociação política, não é mérito algum. Quero ver esses que me perseguem se tornarem presidentes numa convenção limpa, justa, livre. Porque foi nessa condição que me elegi vice-presidente. Quero que tenhamos líderes escolhidos de fato pela militância partidária. Quem me ataca hoje falou a vida inteira nisso, mas age diferente. Um líder que prega uma coisa e faz outra não é digno da confiança de ninguém, menos ainda do povo.

 

COLUNA –  Caso não fique no PDT, qual o caminho a tomar? Mais à esquerda ou mais à direita?

DEPUTADA PAULINHA – Não consigo avaliar essa hipótese. Tenho 31 anos de filiação no PDT. É uma vida que está em jogo aí. Quanto a segunda questão, à exceção da extrema esquerda e da extrema direita, que ainda tem seus nichos de seguidores, não acho que as pautas do país tendem a se concentrar em bases ideológicas dessa natureza. Não é isso que a população tem expressado nas ruas.

 

COLUNA – Houve retaliação dos colegas de Alesc pelo seu posicionamento de defender o governador Carlos Moisés?

DEPUTADA PAULINHA – Em um momento sim, e de forma muito cruel, inclusive. Um exemplo claro foi o resultado da votação da TPA (Taxa de Preservação Ambiental), uma lei absolutamente inaplicável, que foi aprovada unicamente para me punir. Nem todos os votos contrários foram por essa razão, mas a maioria, com toda a certeza. No entanto esse momento passou, agora é hora de olhar pra frente. Política não é lugar para magoados, para quem não tem grandeza de perdoar, de superar situações que fogem do controle.

 

COLUNA –  O fato de ser mulher traz algum tipo de influência sobre a percepção do parlamento em relação ao seu trabalho?

DEPUTADA PAULINHA –  Ah, com toda a certeza! Convivemos com um machismo estrutural, silencioso, endêmico. É impressionante como as mulheres são percebidas como menos merecedoras de ocupar espaços importantes, aos olhos de muitos. No geral, o sistema nos quer para legitimá-lo, como coadjuvantes, pra dizer: “olha, não somos machistas, tem uma mulher aqui, viu?”. Mas daí a se sujeitar ser liderado por uma mulher, vai longe a conversa.

 

“Convivemos com um machismo estrutural, silencioso, endêmico”

 

COLUNA –   A senhora gosta do atual modelo partidário e do sistema eleitoral ou acha que precisa mudanças?

DEPUTADA PAULINHA –  O modelo partidário atual está mais do que vencido. Veja que temos presidentes de partido há mais de vinte anos. Onde está a democracia nisso? Em meu ver, mesmo para direção partidária a reeleição deveria ser admitida apenas uma vez, já começa por ai. O sistema eleitoral, da mesma forma, exige muitos reparos. Precisamos de mecanismos que aproximem os anseios da população das decisões tomadas pelos eleitos. Esse é o meu pensamento.

 

COLUNA – Como você avalia seu trabalho parlamentar neste primeiro mandato? E o que projeta para 2021/2022?

DEPUTADA PAULINHA – Em termos de trabalho, sem falsa modéstia, é difícil encontrar equipe com o nosso desempenho. Atuamos fortemente na saúde, na educação, na segurança, na pesca, no apoio direto aos pequenos municípios, e também fazemos uma frente legal junto ao terceiro setor. No entanto, estou longe de me sentir satisfeita com os resultados que alcançamos. Há muito trabalho pela frente. 2020 foi um ano praticamente perdido. Por isso estamos agora ligados na voltagem 220, dando o máximo, trabalhando em ritmo muito acelerado. Queremos compartilhar grandes conquistas com a sociedade, e sabemos que, com a seriedade que hoje encontramos no governo do estado e com a união dos poderes, isso é mais que possível.

 

COLUNA –  Deve disputar a reeleição para o parlamento catarinense ou alça voos maiores?

DEPUTADA PAULINHA – Quem define o passo que um líder dá não é ele próprio, mas as causas que ele se envolve. A maior prova é a minha eleição para deputada estadual, que, em definitivo, não estava na minha meta pessoal até se tornar uma realidade. O processo natural é seguirmos para a reeleição aqui no parlamento, mas ainda é muito cedo pra pensar nisso. Com toda a franqueza, estamos abrindo frentes de trabalho tão audaciosas que não resta tempo pra pensar em eleição nesse momento.

 

COLUNA – Caminha em 2022 ao lado de Carlos Moisés, que tende a deixar o PSL, ou era apenas uma aliança Parlamento versus Executivo?

DEPUTADA PAULINHA – Moisés é um homem que tem a minha admiração, o meu respeito, o meu carinho. Em termos éticos, defendemos bandeiras comuns, e estou muito motivada com os resultados econômicos que o Estado tem obtido. Isso tem uma relação direta com o bem estar das pessoas, e é esse o meu maior interesse. Quanto a projetos eleitorais, não temos conversado a esse respeito. Há posições que precisam ser tomadas no seu devido espaço de tempo, de acordo com o partido que representamos, com as pessoas que caminham conosco. As prioridades impostas pela covid-19 e pela necessária recuperação econômica do estado não nos permitem pensar diferente. Pessoalmente, no entanto, não teria nenhuma dificuldade em acompanhá-lo em uma reeleição.

 

COLUNA – Qual o cenário que você projeta as eleições? Quem se aliança com quem para 2022?

DEPUTADA PAULINHA – Francamente? Não me sinto atraída por esse tema agora. 100% do meu tempo está tão ocupado em angariar resultados para sonhos e desafios imediatos que até mesmo questões pessoais, familiares, tem fugido da minha perspectiva. Prefiro deixar pra olhar esse cenário no começo de 2022.

 

COLUNA – E no projeto nacional, será “todos contra Bolsonaro”?

DEPUTADA PAULINHA – Não acho que as forças políticas nacionais encontrarão unidade para uma disputa dessas. Tampouco acredito que o resultado da próxima eleição esteja sedimentado no partido A ou na aliança B. Muitos políticos ainda pregam o negacionismo da realidade imposta pela vontade popular. As pessoas votam cada vez menos em partidos políticos, essa que é a verdade. Outra verdade é que o Bolsonaro não é o mesmo encantador de 2018. Há muitas forças de resistência crescendo pelo país.

 

COLUNA – Você acha que Bolsonaro é diferente ou o afago ao Centrão o coloca na vala comum da política?

DEPUTADA PAULINHA – Nunca o achei diferente, a não ser pela sua eventual inabilidade de se expressar de forma equilibrada e respeitosa, principalmente diante de temas de relevância nacional. Seu governo tem coisas boas? Tem. Mas, também reúne um conjunto de mal feitos que não dá pra fechar os olhos. A política de educação pública mesmo, meu Pai do Céu, é um desastre. A forma como lidou com as vacinas foi um flerte direto com a morte de muitos e muitos brasileiros, e isso não pode ser ignorado. Podíamos ter milhões de brasileiros já vacinados a essa altura não fosse a sua teimosia.

 

“A forma como (Bolsonaro) lidou com as vacinas foi um flerte direto com a morte de muitos e muitos brasileiros…”

 

COLUNA –  E para finalizar?

DEPUTADA PAULINHA – Desejo, de coração, que encontremos amadurecimento no processo de construção social. Que tenhamos mais capacidade de dialogar e trabalhar juntos, e abandonemos a intolerância, o desrespeito. Apesar dos desafios que se apresentam diariamente, que nos obrigam a lutar contra o preconceito, sinto que Deus me oferece uma dose extra de coragem e inspiração. Minha ambição verdadeira, que bate forte em meu peito, é ter um estado mais justo, mais digno, para todos e todas. Essa é a causa da minha vida. E enquanto eu tiver de pé não faltará esforço e dedicação, pela nossa gente, por Santa Catarina.  Um beijo, um abraço fraterno e fiquem todos com Deus!

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