Primeiro nome apresentado para o governo interino de Daniela Reinehr, o general da reserva do Exército Ricardo Miranda Aversa dá o tom da nova gestão estadual em Santa Catarina. Após 37 anos de serviço nas Forças Armadas, o general virou secretário e assumiu a Casa Civil, um dos postos mais importantes do Executivo e que trata das relações políticas do governo.

Miranda promete diálogo e descarta o estereótipo do militar turrão. Em entrevista à Rede Catarinense de Notícias, falou sobre as mudanças de governo, os planos para o relacionamento com os deputados, e as prioridades da pasta. 

Rede Catarinense de Notícias – Quando assumiu, o senhor comentou que o objetivo era retomar a credibilidade e a comunicação. Como está este trabalho nestas primeiras semanas?

Ricardo Miranda Aversa – A Casa Civil, eu considero que tem dois pilares de trabalho. Um é a coordenação de trabalhos internos das secretarias e de atividades que são transversais a mais de uma delas. Então nesse sentido essa tem sido uma grande demanda do meu trabalho, de começar a trazer as secretarias para conhecer os projetos e fazer com que eles deem andamento no governo. O segundo são as articulações externas, e aí envolve as articulações com a Alesc, com os municípios e com o governo federal. Então dentro desta atuação, neste tempo, nós aproveitamos uma janela de oportunidade quando fomos a Brasília para fortalecer esse relacionamento com o governo federal, aproveitando inclusive contatos que eu já tinha em função do exercício de minha profissão, no Exército, que de certa forma abrem portas para que a gente apresente as demandas de Santa Catarina e o governo federal possa, dentro do possível, nos atender.

RCN – O senhor já conversou com os deputados? Como sentiu nos parlamentares esta mudança no governo?

Miranda – A conversa com os deputados estou programando para começar a partir de agora. Nós tivemos aqui uma alteração no corpo da Casa Civil, trouxe como adjunto o [Eduardo] Pizzolatti, que trabalhava lá dentro justamente para que a gente consiga ter essa conversa já mais eficiente, mais aberta com os nossos deputados. O passo seguinte é visitar os deputados individualmente, até para que eu possa me apresentar. Esse é um trabalho que está começando agora. A governadora já esteve lá e me levou nesse encontro com o presidente da Assembleia, e eu estive lá presente. Alguns deputados já conheço, em função do meu último cargo no Exército, então naturalmente haviam algumas ligações institucionais que me levavam a ter contato com a Alesc. Outros eu tive contato em solenidades, mas já me apresentando, para que a gente comece essa articulação e construir os projetos junto com a Alesc, porque todos os entes trabalhando de forma síncrona, objetiva, o ganho é para o nosso Estado, nossa população.

RCN – Nessa sequência de visitas com os deputados, quais serão os primeiros? Algum grupo ou partido específico? 

Miranda – Não, não tem nenhum planejamento nesse sentido. Vamos montando a agenda conforme disponibilidade dos deputados para justamente construir essa relação de confiança institucional e de abertura ao diálogo. Mas nada planejado nesse sentido de priorizar alguns. A gente sempre começa pelo comandante, como dizemos no Exército, então a primeira apresentação tinha que ser ao deputado Julio Garcia, que já o fizemos. A partir daí já solicitei a disponibilidade de estar presente ali na Assembleia para fazer o trabalho. 

RCN – O senhor sente que tem alguns deputados mais próximos do governo, pela articulação que a Daniela fazia antes de assumir? Algum nome para liderança?

Miranda – Essa questão do líder está focada na governadora, então ela está para definir um nome. É um processo que inclusive eu aguardo a definição dela, o que deve acontecer nesta semana, ou mais tardar semana que vem.

RCN – Nos assuntos internos de governo, tem Covid, estiagem, reforma da Previdência. O que o senhor vai priorizar?

Miranda – Nós assumimos esse cargo numa situação diferente. É um período em que o ano fiscal está acontecendo, as ações estão correndo, então eu costumo comparar que embarcamos em um trem em movimento e que precisamos colocar as rodas no trilho para reacelerar esse trem e voltar a velocidade da normalidade. As primeiras ações emergenciais foram justamente neste sentido. A questão da estiagem, a estruturação de um gabinete de crise, como eu falei na transversalidade das ações, isso envolve infraestrutura, desenvolvimento regional, Defesa Civil, vários órgãos. Então quando a gente precisa de um colegiado, a Casa Civil entra como um grande ente coordenador. A estiagem é um foco de atenção máxima no momento, junto com a questão da Covid, que envolve educação, saúde, então as ações têm sido muito focadas em fazer os ajustes necessários com muita consciência e responsabilidade, tendo em mente que o governo não pode parar para recomeçar. Ele tem que continuar o ritmo que estava e acelerar as ações para que o Estado volte a ter a credibilidade que merece, porque o processo de impeachment acaba desgastando as instituições, é um desgaste pro Estado. Agora o objetivo é olhar pra frente e reacelerar esse trem.

RCN – Hoje o governo discute uma reforma da Previdência ou pretende discutir em breve?

Miranda – Agora isso não está na nossa pauta. As prioridades estão relacionadas à pandemia. Ainda não entrou esse assunto aqui na Casa Civil. Não é uma prioridade neste momento em que estamos com uma estiagem e a Covid. 

RCN – Outra ação que envolve a Casa Civil é o Projeto Recuperar. O senhor prevê alguma mudança ou ampliação no programa?

Miranda – Por enquanto é dar continuidade ao que estava acontecendo. Nós estamos nos aproximando do final do ano. Em dezembro termina o exercício financeiro e o momento não é propício para fazer grandes guinadas, grandes modificações. Lógico, pequenos ajustes serão necessários e serão feitos.

RCN – O senhor é um general do Exército na Casa Civil, assim como aconteceu na Casa Civil federal. Como se sente pessoalmente ocupando um cargo deste tipo? Quais são os benefícios e os entraves de um militar neste posto?

Miranda – Primeiro, eu tenho que agradecer a governadora pela oportunidade. Eu passei para a reserva do Exército em janeiro deste ano, comandava a Brigada em Florianópolis, e estava em casa. Surgindo a oportunidade, a governadora recebeu indicações e abriu essa oportunidade e eu sou muito grato de continuar servindo. Foram 37 anos servindo a nossa população, ao Brasil como um todo, e agora focado no Estado que eu escolhi para viver. Sou casado com catarinense. Tenho filhos nascidos em Florianópolis. A raiz é mais profunda. O que nós trazemos nessa carreira é uma experiência na administração pública, com cursos de capacitação e experiência prática. Isso ajuda muito, era ordenador de despesa etc. E outro aspecto é que o governo Bolsonaro tem muitos militares e por serem conhecidos de longas jornadas sempre facilita a interlocução. São pessoas que se conhecem, já sabem a forma de trabalhar, de agir. Facilita essa comunicação com o governo federal. Esse é dos grandes capitais que eu trago para o governo. Por outro lado, você perguntou da dificuldade. Às vezes, a nossa profissão militar no Exército, embora goze de alta credibilidade junto à sociedade, nós somos pouco conhecidos, da forma que agimos, da formação e às vezes somos rotulados. Em qualquer área tem pessoas diferentes, as personalidades são diferentes. Existe é um rótulo de que um militar é uma pessoa distante, de difícil relacionamento e espero, muito em breve, mostrar que sempre tive uma interlocução muito fácil aqui no Estado, com todos os setores, e que acabei construindo relações profissionais muito boas, sem problema nenhum. 

RCN – Hoje tem um cargo vago na Casa Civil que é a Secretaria-Executiva de Comunicação. O senhor já tem um nome para apresentar?

Miranda – Nós temos feito alguns convites, às vezes tem alguns aspectos pessoais que impedem os convidados, mas estamos trabalhando esse nome. Inclusive ouvindo os segmentos interessados para que a gente coloque pessoas que consigam articular bem. Tenho ouvido o trade de mídia, dentro da própria estrutura de governo. Em breve, teremos um nome.

RCN – Receberam muitas negativas?

Miranda – A gente tem procurado focar em alguns nomes. Alguns nomes foram sondados e seja por negócios pessoais, e outros motivos, preferiram abrir mão do convite. 

RCN – Sobre a equipe de governo, houve a troca na Casa Civil, na Procuradoria-Geral do Estado e confirmações na Saúde e Segurança. Haverá mais trocas? Onde?

Miranda – Nós temos a Secretaria de Desenvolvimento Social que a titular pediu exoneração. Aí é um cargo que está vago e em breve deveremos ter um nome para nomear. A governadora está ouvindo sugestões. Para o restante das pastas, não há nada concreto. Tão importante quanto às substituições são as confirmações, porque aí a gente garante que o titular permaneça no trabalho sem ficar na expectativa de se vai ficar ou ficar sair. Por enquanto não há nada previsto, digamos assim. 

RCN – No caso de Paulo Eli (Fazenda) e Thiago Vieira (Infraestrutura), duas pastas importantes, ainda não houve confirmação oficial. Permanecem?

Miranda – Por enquanto, não se fala em mexer. Não houve nenhuma deliberação, nenhuma conversa comigo particularmente no sentido de se buscar novos nomes. Acredito que os nomes sejam confirmados, ela pode manifestar em breve essa confirmação. Mas nada foi conversado sobre esse assunto. 

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