Números indicam que assunto é pouco discutido e casos crescem cada vez mais; confira dados de pesquisa nacional

Pouca gente sabe, mas em 15 de Junho é celebrado o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa em 2006, e visa conscientizar o grande público sobre esse tipo de violência que é comum, mas ainda pouco discutida. “É algo muito velado, as pessoas raramente denunciam a não ser em extrema situação. Muita gente mascara finge que ajuda e que cuida, o próprio idoso omite a situação, então imagina a sociedade”, explica  Maria Madalena Martins da Silva, psicóloga do Centro de Referência Especializada e Assistência Social, Creas, de Sombrio.

Ela explica que, ao contrário do que se pensa quando o assunto é violência, não é preciso bater ou ferir fisicamente um idoso para violá-lo. Existem diferentes formas de violência. “A violência maior nem é a física, é a negligência, o abandono, empréstimos contraídos no nomes dos pais pelos filhos, são violências nesses sentidos”, diz. 
Uma pesquisa divulgada pelo Disque 100 revelou que as violações mais registradas são negligências (38%), seguidas de violência psicológica, como humilhação, xingamentos, etc, com 26,5%, além de abuso financeiro e econômico, com 19,9% das situações. A violência física aparece apenas em quarto lugar, presente em 12,6% das denúncias. Ainda, uma mesma pessoa pode sofrer mais de uma dessas violações.
Com relação aos atendimentos feitos pelo Creas de Sombrio, Madalena esclarece que há um perfil nas vítimas, quase sempre violadas financeiramente. Segundo a psicóloga, a família vê no idoso um modo de conseguir dinheiro. “Um idoso aposentado hoje, paga alimentação, às vezes até aluguel, e muita medicação. Os filhos não entendem que ele não tem condições de arcar com todos os custos, e que cuidar do idoso é função da família”, ressalta.
Ainda de acordo com o estudo do Disque 100, em 2018, 53% dos casos de violações contra pessoas idosas foram cometidos pelos filhos, e em 7% dos casos, os agressores eram os netos. As situações de violência prenominam entre vítimas mulheres, com 62,6% dos casos, enquanto o número de homens chega a 32%. Um dos dados que mais chama a atenção na pesquisa é com relação ao local onde as violações acontecem. Em 85,6% dos casos, o idoso é violado dentro de sua própria casa. É por isso que, muitas vezes, quando a denúncia acontece e a situação vem à tona, as vítimas são tiradas de suas casas, e essa mudança quase nunca é agradável para a vítima.
Apesar de todo o bom trabalho desenvolvido plos lar para idosos, Madalena diz que eles preferem ficar em casa ou permanecer em situação de negligência. Ela destaca que muitos se sentem abandonados, já que quando são levados para os lares, são, quase sempre, esquecidos pelas famílias. “O pior de tudo é que uma grande maioria está sendo encaminhada para os lares, o que acontece muito quando não tem quem cuide e a Justiça precisa intervir. E eles não querem ir, culturalmente não são preparados para isso, chegam a omitir a violência para não ir”, completa.
Quando a denúncia chega ao Creas, uma equipe visita a residência, constata se há ou não situação de violência, e encaminha à Promotoria Pública. No entanto, segundo a psicóloga, antes que a situação chegue à Justiça, o próprio Creas conversa com os familiares e, na maioria das vezes, a questão é resolvida. “Às vezes até uma pessoa da família, um irmão, se dispõe a ajudar, mas pede que os outros familiares ajudem financeiramente. E nos casos mais graves, a promotora observa que não há condições financeiras ou psicológicas da família para cuidar do idoso, e o encaminha a um lar”, acrescenta Madalena.
Os casos atendidos pelo Creas são sempre sigilosos, sendo que até o acesso aos números é restringido. Mas Madalena calcula que, apenas em 2018, mais de 30 situações de violação aos direitos dos idosos foram registradas. Na pesquisa do Disque 100, mencionada anteriormente na matéria, houve um aumento de 13% no úmero de denúncias de violência contra pessoas idosas.

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